Os Linhos da Avó - Heterogeneidade de contos: culturalmente próximos, exageramente enfadonhos


Os Linhos da Avó, Rosa Lobato de Faria

Os Linhos da Avó é um livro de contos de Rosa Lobato de Faria. A variedade de contos tem uma ténue linha condutora, onde se sente um toque de intimidade da autora e complexas e belas danças de palavras. No entanto, na variedade de contos, encontra-se tanto familiaridade como enfadonha impessoalidade.
Dir-se-ia um livro de contos para crescidos; nele não faltam textos sobre relações entre casais, entre os amantes dos casais, e entre sabe-se lá quem mais. São relações que são mais danças de poesia do que crudemente eróticas; mas, para bem ou para mal (no meu caso, para mal), ainda que despertem a vida nas personagens, a mim pouco me despertam.

Os Linhos da Avó é um livro pequeno, compacto, agradável de se pegar e de ser ler. A edição exterior nunca me atraiu - julgava o livro pela capa e contracapa, tomando-o como um daqueles livros femininos com falta de interesse, apesar de não saber bem o que me esperava.

Na verdade, o conteúdo surpreende. Sou obrigada a admitir que o primeiro conto me deixou absorta, mesmo confusa, e expectante. Com personagens e tempos que se pareciam trocar, indefinidos, exigia uma atenção de quase desenhar gráficos para entender o que se estava a passar. "O que é isto?", era a pergunta que surgia. Apesar do desfecho e do desenrolar dos acontecimentos não ser tão interessante como prometia, é preciso dar crédito ao estilo arriscado.

Dos outros contos, no entanto, poucos foram os que despertaram sentimentos. Muitos focam-se directamente na relação entre homem e mulher. São emoções vivas e toques físicos, ora paixão, ora ódio, ora prazer, por vezes tudo misturado. Feliz ou infelizmente, sem ligação às personagens, e no meio de narrativas de danças de palavras, perde-se a conta ao que se está a passar. Afinal, narra-se uma história, ou dança-se? Quantas voltas se darão até acontecer mais alguma coisa? E, sem ligação emocional à personagens, de nada vale estas sofrerem suplícios, desgostos de amor ou noites escaldantes.

A verdade é que os temas e as relações são quase sempre muito parecidos. Começa a tornar-se enfadonho. Ao final de cada conto, há uma esperança de que o próximo traga algo mais, mas raramente despertam verdadeiro interesse e emoção.

Não se pode dizer que todos tenham sido uma experiência negativa, no entanto. As palavras são bonitas; os recursos estilísticos são danças bonitas; mas falta alguma coisa. Alguns contos servem-se menos do erotismo imediato ou da lição de História de Portugal e dão mais consistência, personalidade e verdade à história e aos seus intervenientes. Outras vezes, despertam um imaginário cultural, que aproxima o leitor de contextos verdadeiros, que reconhece: os velhos, a aldeia portuguesa e o sonho dos caminhos-de-ferro, a família e os jogos de futebol, a religião católica ou um toque de espiritualidade. Estes toques de realidade transportam o leitor para personagens e locais mais verdadeiros, que reconhece. Quando assim foi, por vezes, o livro despertou pensamentos, emoção, e uma consistência de história mais madura; personagens e lugares com vida, vida verdadeira. Neste casos, era possível ser envolvido pela história, mas também extrapolar pensamentos, reflectindo e fazendo paralelismos com a vida, para fora do livro.

Infelizmente, no meio da poesia das palavras, a muitos contos pareceu faltar qualquer coisa. Os pormenores de muitas histórias perdem-se e misturam-se na memória; alguns tornam-se mais esquecíveis, outros assentam melhor; talvez seja mesmo esta a virtude e o mal da compilação de um livro de contos; juntos, são mais parecidos (o que é bom para quem gostar), e os mais diferentes soam como pequenos sinos no meio de um som cinzento de fundo, ou como raios de sol no céu de nuvens, ou como uma nuvem num céu excessivamente azul.

Os contos

Destacam-se Estrada Marginal, pela surpresa das narrativas e a exigência para a sua compreensão - e também por se debruçar mais nas jornadas pessoais de cada personagem, tanto pela sua própria mente como pela dos outros; é um conto quase rico e confuso, ainda que recorra demasiado à famosa dança de palavras, de corpos, e de conversas de paixão.

O Desafio Fantasma: foge à rotina, é contado como não-ficção (mas melhor seria se não o fosse, já que isso adiciona uma questão com que o leitor preferia não se debater enquanto aprecia a história), destaca-se porque é uma história curta e com elementos de surrealismo mágico no meio do quotidiano.

Um Banco no Jardim é um conto pacato e engraçado, também com um certo realismo mágico, mas que pouco desperta para além de uma pequena surpresa de um plot twist.

Criada Para Todo O Serviço é uma história surpreendente, que inesperadamente surge como um conto de terror; foi também aquele que mais pensamentos despertou, bem como ligação emocional às personagens.

O Laço destaca-se pela negativa como um conto enfadonho e violento - quem diria que se podiam juntar estas duas palavras?

Maçã tem a graça da surpresa, mas também a intriga enfadonha. Os Linhos da Avó, conto que dá nome ao livro, teve uma certa graça, e despertou mais emoção e ligação às personagens que muitos outros contos; mas não fugiu à intriga amorosa tão previsível. O Segredo é tão segredo que se perde na mente, porque nunca nos é revelado.

A Fórmula é talvez um dos contos mais ricos. Com apenas três personagens, as personalidades que lhes são desenvolvidas têm relevância para a história e contribuem para compreender as relações que estabelecem entre si. O conto cria tensão ao mesmo tempo que traz sorrisos; no fundo, também tem uma graça, e uma tensão de comédia. Serve-se de valores de moral e de hipocrisia para colocar o leitor a pensar mas sem o pressionar a isso; usa-os apenas nas personagens, de forma fluída, fazendo correr as páginas com interesse e deixando os pensamentos mais ricos, ao mesmo tempo que usufrui, envolvido emocionalmente e intelectualmente na simplicidade caricata da história.

Vem o Senhor destaca-se claramente pela negativa. Talvez a personagem mais irrealista de todo o livro, a mulher do filho de D. Pedro e Inês quase não passa de um instrumento de um professor de História muito chato. Poderia ser um romance histórico subtil e envolvente, mas o que é, de facto, é uma lição de história dada por uma professora mascarada, numa aula que pretendia ser mais interessante, mas só fazia ansiar pelo toque para o intervalo.

Mulher foi um conto esquecível e desinteressante, como foi Ao Sabor do Corpo. O Sétimo Sentido, por vezes, despertou o imaginário dos sentidos com misticismo, mas noutros momentos adormeceu-os.

O Comboio foi um conto inesperado, cheio de pequenos pormenores engraçados, numa comédia tanto cómica como dramática. O Cálice de Porto traz toques de inquietação que fazem lembrar um conto de terror.

A Morte do Unicórnio parece um conto para crianças e para adultos, tocante e chamando ao lado simples de criança de qualquer ser humano.

Dois dos últimos contos trazem um imaginário espiritual muito tocante e fluído. São os pequenos toques de uma atenção ao que é místico e religioso que dão um gosto especial a estas histórias: Três Vezes o Natal é um conto bonito, essencial para animar o espírito verdadeiro do Natal, que desperta o imaginário católico muito português, tanto dos que ainda são católicos como os que deixaram de o ser, mas que partilham culturalmente as memórias. Fá-lo de forma muito sentida, o que leva a uma ligação especial com a personagem. O Anjo, o último conto, fá-lo ainda mais; não só tem um toque religioso muito vincado como também é muito pessoal e íntimo; é uma espécie de autobiografia de Rosa Lobato de Faria, que vem ao nosso encontro, contar a sua história. Fá-lo numa perspectiva centrada em Deus, porque coloca sempre o "seu anjo" a seu lado, toda a sua vida. É bonito, simples, pessoal e místico.

Variedade com ténues fios condutores

É curioso reparar que este livro transmite muito o que é Portugal. Não que haja uma definição nacionalista ou um estereótipo cliché único. As personagens têm cada uma a sua personalidade e vida, mas, muitas vezes, uma frase em todo o conto bastam para sentir um cheiro de cozinha familiar, ou reconhecer uma rua. Sabe-se, simplesmente, que é um imaginário próximo, sem que isso se torne invasivo de forma alguma.

É um livro para vários gostos, mas não para todos os gostos, e não para um só gosto. É de esperar que vários contos sejam enfadonhos; há alguma variedade, e nela se encontram raios de sol, mas que nem por isso elevam numa experiência transcendente de literatura. Os contos mais eróticos tendem a ser os mais impessoais. Outros há que envolvem um pouco mais.

No final, não é uma experiência totalmente agradável; não é fácil suportar a leitura de todo o livro. No entanto, qualquer leitor que o fizer, pode no final eleger os seus contos preferidos e não olhar mais para os outros, deixando-se encantar apenas pelos eleitos. De qualquer modo, todo o livro acaba por parecer ser muito íntimo da autora, como se ela mesma estivesse ao lado do leitor, expectante pela sua reacção e comentários. Parecem vir de um íntimo, das suas experiências; muito reais, com o toque das suas mãos. O último conto amplifica essa sensação, com uma clara abertura de portas ao seu coração, para a sua partilha. E fechando o livro dessa forma, ganha-se uma perspectiva que o torna, na sua totalidade, mais belo.

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