"A Minha Vida Antes De Ti" (2016): Uma vida absolutamente igual antes e depois do filme.




Nós antes do filme, nós depois do filme? Iguais, mas talvez um pouco mais cépticos e aborrecidos.

7,4 estrelas no IMDB, 73% pessoas gostaram no Rotten Tomatoes. Por esta estatística, dir-se-ia um filme promissor, mas revela-se um romance vazio, embelezado por actores bonitos e bem-vestidos e pela qualidade de imagem de um orçamento demasiado alto para aquilo que gerou.

Não é costume ver este tipo de filme, um chamado tearjerker, e esta é a prova de que assim deve continuar a ser. O romance Me Before You é um romance ‘barato’ que se aproveita de temas sensíveis para tentar manipular o espectador. A proposição geral é um prenúncio disso. Apesar de conter temas potencialmente desafiantes, a narrativa e as personagens são óptimos para decepcionar muitos que criem expectativas altas.

As moralidades duvidosas das personagens e a sua resolução de problemas poderiam ser satíricos ou uma crítica social, mas, como muitos filmes deste género, falham nessa oportunidade. As relações de infidelidade e a traição são aceitáveis e até encorajados quando o amante se trata de alguém tetraplégico e a personagem infiel é uma mulher. Poucos momentos são dispensados ao namorado de 7 anos consistentemente fiel, atento e compreensivo – o suficiente para sugerir que não merece o apoio dela numa viagem comprometida há meses e meses atrás. E este é o menor dos males.
As personagens principais são Will, um homem tetraplégico que decidiu eutanasiar-se, e Louise, uma jovem nada qualificada para tratar dele, que deixa acontecer vários episódios mais que suficientes para uma demissão. Claro que uma demissão impediria que continuasse este romance cor-de-rosa moralmente dúbio e encurtaria o filme para menos de uma hora.

Excessivamente longo, trata temas que podiam ser estimulantes e relevantes com fresca e dramática superficialidade. Personagens egoístas não se tornam vulneráveis (sempre o foram, ou nunca chegam a ser); nunca há um questionamento justo e respeitador sobre a eutanásia ou sobre a verdadeira dor e sofrimento, físico e mental, que trará uma condição física como a de Will.



Louise nunca deixa de sorrir. Chora a sorrir, sorri perante seriedade, sorri quando está no momento que deveria ser o mais difícil da sua vida. Não há cansaço nem perda de forças. A vida é uma alegria, a morte também, há sempre espaço para sorrir. A personagem é, assim, invulnerável, mascarando sempre um interior escondido com as mesmas expressões. Não seria um problema, se isso fosse premeditado; no entanto é apenas um instrumento para fazê-la mais engraçada e querida aos olhos do espectador.

Pode-se dizer quase o mesmo de Will, porém, ao contrário. Da atitude fria e rude aos sorrisos misteriosos de uma emoção totalmente controlada, nunca deixa a vulnerabilidade vir ao de cima verdadeiramente. É alguém firme e confiante, cheio de dignidade, força, o que se torna paradoxal tendo em conta os seus planos de se eutanasiar.



Embrutecidas, as personagens nunca são verdadeiramente exploradas, o que torna o filme uma sequência de acções que envolvem dois jovens atraentes, numa superficialidade potenciada pela riqueza com a qual poucos se podem identificar. Isto, claro, incluindo uma pequena inconveniência de quando em quando, com a qual também poucos se podem identificar: pois não se aproxima realisticamente de uma vida de alguém tetraplégico: nem das dificuldades físicas, nem de alternativas de olhar positivo que se seguiriam no processo de "luto". Do mesmo modo, o tratamento do tema da eutanásia é ofensivo: para além se se apresentar como única alternativa, apresenta-se sem sentido, quer em argumentos pró quer em contra: apresentam-nos personagens estáveis emocionalmente e monetariamente (quer Will, quer Louise).

Superficial em temas potencialmente interessantes e relevantes que poderiam despoletar reflexão. Superficial nas personagens simplistas e romantizadas em conto de fadas. Superficial em demasiado para se retirar algo dele, senão algumas lágrimas (para alguns) ou uma sensação de tempo perdido, para outros. Nem sequer há espaço para a imaginação; nem conteúdo para verdadeira reflexão. Um filme pouco justo para tudo quanto aborda, é a total simplificação e superficialização de um tema que poderia ter grande potencial.

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Outras referências: 
What Me Before You's Depiction of Disability Means to Me as a Disabled Person (Amy Mackelden): podem ler aqui uma reflexão sobre a forma como a vida de Will é representada, e porque é que esta contém decepções e falhas, sob o ponto de vista de Amy Mackelden.

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