Uma partilha: os medos, as descobertas, e «As Vantagens de Ser Invisível» (Livro)
(Livro) The Perks of Being a Wallflower, por Stephen Chbosky
Charlie tem 15 anos e começou o 10º ano. Charlie é uma wallflower: é invisível: vê o que se passa à sua volta, compreende, e guarda
no seu coração em silêncio. Às vezes sorri, outras vezes chora, outras vezes
faz ambas as coisas ao mesmo tempo. Mas, outras vezes, não sabe bem o que sente
e sente-se extremamente confuso. E, tentando lidar com todos estes pensamentos e emoções, escreve cartas anonimamente a alguém escolhido para o ouvir. Nós lemos estas cartas; na verdade, a sensação é de que somos o verdadeiro remetente, o escolhido. E, assim, embrenhamo-nos na intimidade das partilhas de Charlie. Tudo é muito simples; ele é simples e extremamente empático, e é fácil a qualquer um se identificar com as suas alegrias, tristezas e medos.
Há quem diga que é errado o comum leitor relacionar-se com
Charlie, identificando nele características e atitudes da sua própria
adolescência. Por outro lado, o próprio Charlie entende que apesar de “haver
coisas piores”, o sofrimento de cada um é seu, e não deve ser desprezado com
comparações. Na verdade, ainda que se possa compreender que há problemas mais
pesados que outros, a adolescência é uma altura da vida em que o crescimento,
as responsabilidades, e a vida social adquirem maior importância e dificuldade.
Surgem novas experiências, por um lado, e por outro, somos menos protegidos.
Nesta fase da vida começa um processo de experiência própria, que em momentos, demasiado centrada em si mesmo pode ser alheada do efeito que pode ter nos outros; e de compreensão e
empatia cada vez maiores com os que o rodeiam. Daí que tudo se torne num pesado fardo e haja uma grande
dualidade entre nós e o outro, entre um egoísmo e um fechar em si próprio e a
dúvida de como ajudar os que estão ao nosso lado. E, nestes aspectos, The Perks
of Being a Wallflower poderá reflectir fielmente a experiência de muitos jovens
da sua idade, ou de mais velhos, que revejam, em parte, o seu passado.
Isto não quer dizer que Charlie é uma personagem
generalizada. Pelo contrário, quanto mais se lê o livro, mais o leitor se
preocupa com ele e os seus problemas pessoais. Mais do que tímido, mais do que observador
e guardião de tudo o que vê e ouve, Charlie sofre com traumas passados e ainda
se agarra a episódios da sua infância para se relacionar com o seu presente.
Sente-se estranho e diferente, e é uma alegria imensa ter amigos, mas conforme
lemos as suas alegrias sobre as suas amizades, percebemos que são também relacionamentos
incompletos, vindos de uma certa dificuldade de se relacionar com os outros.
O livro aborda temas variados, e mesmo complicados. Da
introversão e dissociação, ao pensar demais de uma ansiedade intensa, de
drogas, álcool, de violência, às relações interpessoais,
amorosas, de amizade e a sexualidade. Aborda também a família e a escola. É um
conjunto de temas complexos e sensíveis. Mas, ao invés de serem dissecados aprofundadamente, são sobretudo tratados com a naturalidade da narração,
simples descrição dos factos e ocorrências. Narrado na primeira pessoa, é
compreensível; o que acontece, acontece, e muitas vezes, como qualquer pessoa,
Charlie prefere não descrever o porquê de chorar, ou mergulhar na dor de se
questionar sobre isso. Além disso, os problemas dos outros são sempre vistos de
fora e filtrados pelo seu olhar; os acontecimentos chegam sempre ao
leitor em segunda-mão. Isto é verosímil e diz-nos mais sobre Charlie do que
sobre os seus amigos e família, tornando-se também mais pessoal. Quanto às
outras personagens, há caracterização suficiente para serem tridimensionais e
completadas pela imaginação.
O livro é também uma mina de ouro em referências culturais, algumas datando-se claramente nos anos 90, década em que se enquadram as personagens. As obras
musicais, nas conversas e nas mixtapes, e as séries televisivas, dão-lhe um enquadramento que dão maior complexidade e valorizam as situações descritas, devido a
uma maior consistência do contexto. Além disso, Charlie lê vários clássicos da literatura, que enriquecem a sua visão do mundo e deixam curiosidade no leitor, enriquecendo também o livro com mais segundos sentidos.
A linguagem usada deixa algo a desejar. Por uma lado, é explícito que são cartas, informais, escritas pela personagem principal, que
“escreve como fala”; por outro, essa justificação não significa que a leitura mais aprazível. Sendo compreensível, deixa, no entanto, a sensação de deixar algo a desejar. Ainda
que o leitor se habitue à simplicidade de Charlie, por vezes, parece-se estar a
ler o texto de uma criança, e não de um adolescente (que, ainda por cima, tem
notas na média dos As e Bs, a inglês). A inocência e a confusão próprias da
personagem não são o problema, mas sim as expressões usadas e a linguagem
infantil. Além disso, como já foi falado, há certas ocasiões em que se denota
uma especial negligência de tratamento de informações. Os pensamentos de
Charlie raramente são desenvolvidos. Surge muitas vezes o sentimento, mas pouco
mais que isso. A fonte do sentimento não é exactamente explorada.
Esta superficialidade na abordagem da mente de Charlie
também se fazem notar, no entanto, em muitos outros pensamentos. Como se ele
absorvesse tudo, mas quase nunca pensasse. Perdem-se grandes oportunidades nas
referências literárias e musicais. Sobretudo vindas de uma personagem que
escreve relatórios sobre os livros que lê e que, portanto, ainda mais maturação
dá às suas opiniões. Mas pouco mais é falado para além dos seus títulos e de um
“estou a gostar” ou “não compreendo”. O seu grande dom de escrita nunca é espelhado nestas cartas, nem a sua interpretação pessoal dos livros. Apesar de tudo, pode
ser uma escolha de Charlie, que prefere escrever sobre outros acontecimentos
mais importantes na sua vida, sendo que os momentos de intimidade, bons ou
difíceis, que passa com os amigos e a família importam bastante para ele.
Um aspecto a denotar como positivo é a relação com a família: esta é extremamente desenvolvida,
completando organicamente a vida do jovem nas várias facetas da mesma. Vê-se a admiração, o respeito e a
incompreensão que tem para com os seus dois irmãos mais velhos e os seus pais;
e também a relação que tem com outros membros mais afastados da família. Deste
modo, o mundo à sua volta é largamente explorado, e a sua vida contextualizada
realisticamente e afectivamente.
Por fim, resta dizer que o ritmo do livro é muito fluído. Charlie
torna-se cada vez mais real aos olhos do leitor, bem como os seus problemas.
Estabelece-se uma relação pessoal e uma aproximação emocional ao rapaz. As
questões sensíveis, particularmente as perturbações mentais, a sexualidade, e
as drogas, são tratadas com grande sensibilidade. Ainda que a tensão vá
crescendo, lado a lado com a ansiedade de Charlie, não há juízos de valor (senão os dele próprio) ou aprofundamentos dolorosos a estas situações. A informação é apenas
suficiente para compreender e afectar emocionalmente, não havendo uma exploração abusadora das mesmas. Isto torna o livro adequado a quaisquer jovens da idade de
Charlie, introduzindo-os a estas questões com sensibilidade; mas sobretudo é
importante dizer que isto o torna também mais adequado a jovens e adultos que
tenham lidado com problemas semelhantes. E, apesar da sensibilidade, não tem
medo de ir a detalhes pesados que tornam a história mais verosímil e real,
quando assim o julga necessário – isto é, admitindo a complexidade das
situações; ou mesmo das personagens: não mostrando só as “vantagens de ser invisível”, mas também
as suas falhas e de aspectos e escolhas suas mais sinistras.
The Perks of Being a Wallflower é, assim, um livro para
jovens e adolescentes que aborda temas difíceis; mas que o faz com
sensibilidade e esperança. As cartas de Charlie aproximam-se do leitor,
envolvendo e investindo-o emocionalmente na personagem. Charlie é um rapaz
sensível fácil de simpatizar, o que potencia esta relação do leitor com ele. O
ritmo é extremamente bem conseguido; o enredo é uma sombra de tensão crescente,
que pode ser ou não surpreendente, pois vai surgindo com sentido no desenrolar
da história – e isto faz dele um bom livro para ser relido e apreciado da mesma
forma, senão ainda melhor. Difícil, emocional, mas muito real e próximo da vida
de qualquer adolescente – especialmente aqueles que se sentem mais invisíveis –
mas também de qualquer pessoa que tenha passado por problemas pessoais do teor
dos de Charlie. É, sem dúvida, um bom livro sobre as dificuldades da juventude; realizado com uma linguagem simples e sensível, mas um conteúdo muito real e relacionável.



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