Escola das Artes – O Filme (2018) é razoavelmente engraçado
Esta crítica contém algumas revelações de enredo.
Um filme giro para crianças; um filme razoavelmente giro para adultos; não é nenhuma obra prima, é só ok, mas tem os seus quês de interessante. Um filme de Nuno Santana.
A Lucy é fixe, a Lucy é bacana…
diz a segunda música dos créditos. Esta música foi uma surpresa redentora
interessante, pelo menos em termos musicais. O arranjo estava interessante, e a
melodia também era agradável; até mesmo as ilustrações que passavam ao mesmo tempo eram bonitas. Parecia uma cançãozinha indie. Nestes aspectos, no
entanto, fica a destoar do filme. Primeiro porque é indie, e o filme não tem
muito de indie sem ser a pão-de-forma; segundo, porque despertou a vontade que estivesse incluída nalguma
cena do filme, com a sua simplicidade e beleza.
Mas não estamos aqui a fazer uma
análise à Lucy, mas sim à Escola das
Artes – O Filme. Um filme que, como essa música, se revelou
surpreendentemente mais interessante do que as expectativas apontavam.
Nem sempre sabemos se havemos de
dizer primeiro o pior ou o melhor sobre ele. Vamos dizer que tem um pouco de
ambos os lados da balança: Não é transformador, mas também não é mau
entretenimento; foi giro; foi engraçado; foi suficiente. Pior (ou melhor?) é
que teve algumas coisas muito bonitas, que lamentamos não terem sido melhor
aproveitadas. Um bom filme para crianças também é bom para adultos; não nos
irão convencer do contrário. Mas é necessário reconhecer que há
filmes para crianças (e para adultos) muito vazios. E este, pelo menos, tinha um bom material de base. É pelas
pequenas coisas que foram interessantes e se destacaram que queremos fazer uma
crítica justa e completa.
Escola das Artes – O Filme começa com uma cena difícil – injusta
comparação, mas faz lembrar a cena inicial de Lady Bird, pois são os filhos “presos”
no carro com a mãe. É envolvente e promissora; apesar dos diálogos vazios,
Marta capta-nos a atenção com o silêncio e a personagem mais construída dos
cinco. João parece-nos promissor, mas isso pode dever-se ao seu silêncio. As
irmãs são personagens distinguíveis, mas com apenas um traço de personalidade, que se dão a conhecer. O que mais importa aqui são as dinâmicas. A cena ganha pela promessa, mas perde pelos flashbacks recorrentes; o início do
filme é demasiado entrecortado, cortando o clima. Desilude pela necessidade de
explicar tudo, e não apenas sugerir pela ponderação nos diálogos, cenas,
construção das personagens. As soluções fáceis desligam-nos da cena
claustrofóbica promissora do carro que nos tinha envolvido até então. Mas uma coisa é certa – estabelece como promessa que o filme será sobre os 4
irmãos, embora com enfoque na Marta (felizmente, também a personagem mais
cativante e carismática).
O prometido é devido, mas fica
mesmo a dever-nos. Embora a Marta (Matilde Ferreira) seja consistentemente uma personagem
principal, juntamente com o Miguel (Francisco Monteiro), que surge mais tarde, os irmãos são
largados, sobretudo o João. Nesta questão, o filme torna-se confuso para o
espectador, porque lhe promete muitas pequenas coisas – como a relação entre os
quatro e o desenvolvimento dessas personagens – mas deixa-as cair. São muitas
personagens, e muitas promessas de as desenvolver, mas, no final de contas, não sabemos
bem em quem é suposto focarmo-nos.
Quantidade não é qualidade, e
vemos pelo grande número de personagens no filme, com as quais parece ser
difícil de lidar em apenas 1h30 – especialmente sendo crianças-actores. São
todos alunos ou professores da Escola das Artes – o Filme. Desculpem, da Escola
das Artes. Muitos são altamente secundários; outros são mais próximos e
principais. Ou não? Por vezes parece que a turma onde estão os quatro irmãos
tem um destaque especial, mas, por vezes, personagens exteriores à turma têm
mais tempo de antena. Não sabemos se isto se deve ao livro, mas achamos que por
vezes um filme tem de saber distanciar-se de um livro, se não é capaz de transmitir
toda a sua complexidade para a grande tela. Personagens têm conversas profundas
e depois nunca mais são exploradas (a relação entre a Carlota e a Mila, por
exemplo, não vai para além de uma conversa).
Desilude-nos que dos quatro
irmãos o João tenha sido completamente relegado para personagem mais que
secundária, e que a Leonor e a Clara não passem de pólos opostos de
bidimensionalidade: uma sempre “má”, outra sempre “boa”, com o mesmo tipo de
falas do primeiro ao último minuto.
Em vez de enfrentar a complexidade
psicológica dos quatro e as suas fraquezas (embora às vezes tente), o filme
serve-se de uma antagonista exterior irritantemente bidimensional
recorrentemente; mas isso nunca faz sentido nem um pouco: porque é que Ana, uma rapariga graúda de 15 anos (e as duas estranhas personagens que sempre a acompanham, sem personalidade) gostaria tanto de se meter com uma criança
de 6 anos com saudades da mãe? Ana é mais os nossos maiores medos do que uma
pessoa real, e chega a grandes cúmulos, sem nunca percebermos bem porquê, sem nunca conhecermos a sua caracterização. Por vezes, perguntamos-nos até se a
Ana não seria dispensável? Porque pouco acrescenta; não é bem construída (ou
não o mostra ao espectador), e acaba por não influenciar o crescimento das outras
personagens, com sentido.
Não vamos falar muito dos professores;
são demasiado questionáveis para o público adulto. As crianças poderão não
questionar nada, mas, para nós, foi difícil desligar o crítico interior cada
vez que um adulto não agia como um adulto responsável, ou a escola não fazia
sentido. A jornada é das crianças e das crianças apenas. Os adultos revelam-se,
essencialmente, e cada vez mais, acidentalmente, um pouco como os adultos do IT: irresponsáveis
– e também mais distanciados do que o filme quer fazer parecer. Têm os seus
momentos melhores; mas é melhor nem questionar.
Talvez, se se tivesse libertado
mais do livro, conseguisse ter algumas personagens mais completas e arranjar
explicações alternativas para as questões que se levantam no espectador. Também
é possível que isso desiludisse fãs do livro. Não é fácil agradar a todos, e
reconhecemos que muitas vezes nós próprios também julgamos um filme quando este
se afasta de um livro. Mas é uma questão muito sensível a ter em atenção –
afinal, o cinema também é uma arte, que devia valer por si própria.
Mas nem tudo é negativo. Mesmo
que quase todas as personagens sejam altamente bidimensionais, há duas
excepções à regra: o Miguel e a Marta. A Marta, psicologicamente, parece mais
velha do que realmente é, mas não é muito difícil o espectador resignar-se a
aceitar algumas falas mais adultas – a maioria é adequada à idade, parece-nos,
e isso aplica-se várias vezes em várias personagens, o que é bom. Mas falemos
destas duas personagens melhor construídas: a Marta tem fraquezas e forças; tem
uma jornada de herói; tem desafios a superar e muda ao longo do filme. O Miguel
mostra-se interessante desde o início, mesmo que tenha
algumas falas que provocam vergonha alheia – isso também é plausível e faz dele
humano e empático. Quando as falas são um comic relief, reportam-se à sua
personalidade e aos seus medos. Podemos ver nele complexidade psicológica e uma
criatividade inesperada. É uma criança, e é uma criança completa e com a qual
conseguimos empatizar, mesmo que não concordemos com o que ela diz.
A relação entre os dois prometia
ser mais explorada; foi uma desilusão a forma como foi largada, por vezes; mas,
ainda assim, foi suficiente para nos envolver no filme. A narrativa redentora
esteve nos desafios pessoais de cada um deles, e nas vezes em que se cruzaram.
Esse potencial e as vezes em que foi cumprido foram as melhores partes do
filme.
A arte do filme é outra promessa.
Uma das melhores cenas do filme é uma das iniciais, em que a turma dos quatro
irmãos apresenta um espectáculo de circo criado por eles. As prestações variam
entre a beleza da dança e a poesia das palavras e do fazer pensar. Tocam-nos,
maravilham-nos, e tem cores bonitas (ver a imagem acima – quem nos dera que fosse sempre assim). É pena a forma como a cena se interrompe a
si própria e tantas vezes arranca o espectador da beleza das prestações e o
distrai desse envolvimento – quando, no final de contas, as personagens que interrompem tantas vezes, no público, são assim desenvolvidas para nada: acabam por ser irrevelantes para a história.
Outro momento chave do filme é a
cena em que cada personagem recebe uma carta da directora com uma palavra. É um
dos momentos mais bonitos, e que nos deixa entusiasmados. Revela as fraquezas
de cada um, revela também o que eles mais precisam de trabalhar, promete que as
personagens irão crescer (ou não) enfrentando ou sucumbindo a essas palavras.
Não consegue cumpri-las, senão com a Marta e o Miguel, e esquece que o João
existe e também teria uma palavra; perde a oportunidade de desafiar a
antagonista com uma palavra, tornando-a também mais humana. Apesar de ser outra
coisa que promete e essencialmente torna a largar, não deixa de ser uma das
cenas mais interessantes do filme.
Outra coisa bonita é o bosque: a
exploração dele enquanto personagem ou, pelo menos, enquanto espaço quase
sagrado. É um lugar seguro, místico, onde conhecemos o Guardião do Bosque e
onde vemos as estrelas. No bosque estão as cenas mais místicas e talvez mesmo as
mais bonitas visualmente. Também nele está o adulto mais adulto e mais
interessante, o Jacinto, Guardião do Bosque.
Podíamos ficar a dizer pequenos
detalhes do que foi bom e do que foi mau neste filme, mas talvez já o tenhamos
feito demasiado; a verdade é que apesar de ser feito de pequenos detalhes, um
aspecto importante de que ainda falta falar é como é que ele se manifesta como
um todo. Neste sentido, no entanto, é necessário voltar a nomear alguns
aspectos negativos. Nomeadamente, a inconsistência da realização. Nem vamos
aprofundar a escolha dos flashbacks, usados no início mas depois esquecidos
(uma questão de gostos, talvez), ou como por vezes as cenas são cortadas
bruscamente (canções claramente cortadas a meio para poupar tempo, quando
preferíamos ver pelo menos mais do que 10 segundos). Vamos só nomear a cena que
parece um anúncio publicitário, a qual não sabemos se é paródia ou apenas algo
muito, muito mau, que nos distrai e acorda o crítico interior em cada um de
nós. O que foi aquela cena? Artisticamente, narrativamente? Qual foi o seu propósito? O que
foram os efeitos visuais, os diálogos, o estilo à anúncio de televisão? Esperamos que seja mesmo uma paródia, mas, não sendo um filme de
comédia, não sabemos bem o que pensar. É estranho e uma desilusão.
O que une o filme de uma ponta à
outra também é a banda sonora, um dos aspectos mais importantes e
transformadores de um filme. O que devia ter destaque, criar ambiência e
exprimir a história noutra linguagem limita-se muitas vezes a música um pouco genérica
e discreta. Talvez até se reparasse mais a uma segunda visualização. Não se
destaca nem integra como personagem, como acontece em muitos filmes,
infelizmente. Só é pior pelas vezes em que é uma música invasiva, alta e
ritmada que parece pertencer a um programa de televisão sensacionalista. A
música final é engraçada, embora demasiado extensa; poderia ter sido
aproveitada no resto do filme como tema principal, mas, se não podemos pedir
tanto, não vamos pedir tanto. A música da pão-de-forma, no entanto, temos pena,
porque era bonita.
Por fim, a fotografia – sobre a qual não há muito a dizer. Algumas cenas têm, de facto, planos e cores bonitas, como são, nomeadamente, as cenas à noite, no bosque, ou o espectáculo de circo. Outras passaram mais ao lado. Não nos parece, também, que haja uma palete de cores do filme definida, que se destaque artisticamente, ou alguma escolha estilística especial. A não ser que contássemos as óbvias cenas estilo publicidade já referidas... de gosto dúbio caído de pára-quedas.
O filme não é mau. É até agradável, por vezes. Tem várias coisas bonitas e algumas personagens interessantes. Mas também é verdade que levanta muitas questões, por vezes, quando tenta explicar demasiado, deixando um espectador a compreender muito menos do que se ele próprio imaginasse as perguntas e respostas. No entanto, isto ocorre com um espectador adulto e, provavelmente, as crianças não irão sentir o mesmo problema. A aventura de crianças é algo que cria empatia e é importante sobretudo para esse público-alvo se identificar com elas; a narrativa da Escola das Artes também é algo interessante e diferente, sobretudo porque pode despertar o gosto pelas várias artes, ou, para quem já aprecia, apreciá-las mais um pouco. A história é simples, até é engraçada, e não é vazia. Os actores pouco nos maravilham, mas, primeiro, são crianças, e não é fácil crianças carregarem um filme às costas como personagens principais, e, segundo, quase todas as personagens que lhes deram são planas e bidimensionais. Mas a actuação é aceitável – pelo menos para crianças e para o material que lhes foi dado – e muitas vezes até razoavelmente boa, especialmente com a Marta e o Miguel. Já os outros tiveram papéis bidimensionais, e por isso o material que tiveram de trabalhar talvez não lhes permitisse muito mais; e para certos actores adultos poderia ter sido muito melhor, ainda que nem sempre lhes fosse permitido. Curioso também é notar neles muitas vezes tiques de teatro, nas crianças actores, como a prioridade para a projecção da voz e a dicção, ou os, mais estranhos, olhares distantes. Tal pode dever-se, também, a indicações do realizador, tendo em conta que alguns planos também apresentam semelhanças com peças de teatro nos posicionamentos dos actores. Nem sempre estes aspectos se enquadram organicamente.
No meio de tantas coisas a absorver,
no final de contas, as falhas do filme tiveram algo de redentor: fizeram-nos
ter vontade de ler o livro. Sobretudo a bidimensionalidade das personagens e o
deixar a desejar conhecê-las melhor, ainda por cima, quando são tantas, é algo
que pode acontecer frequentemente nas adaptações de livro a filme. Mas um livro
tem sempre mais possibilidades de ir ao seu próprio ritmo, de nos fazer
conhecer os pensamentos e sentimentos das personagens, e, no fundo, de criar
mais empatia, precisamente por dar mais espaço à imaginação e ao interior das personagens.
Acreditamos que o livro poderá satisfazer as perguntas que o filme levanta.
Também esperamos que, ao mesmo tempo, nos faça maravilhar com as partes mais
interessantes e bonitas do filme.
Não é uma obra de arte; não é um
filme muito para adultos e crianças; é só algum entretenimento. Mas, pela Marta
e pelo Miguel, pelas algumas cenas de prestações artísticas, pelas pequenas partes promissoras, e pelo
misticismo da floresta e das estrelas, é razoavelmente interessante e engraçado.
Não sabemos se o veríamos novamente sozinhos, mas provavelmente as crianças
gostarão de fazê-lo.
Imagens retiradas de frames do trailer do filme, no youtube.







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