Terças de Poesia Clandestina #62: Vivência da poesia na experimentalidade de Inês Jacob e na cumplicidade com Al Berto


Terças de Poesia Clandestina - 7 de Março

É às nove e meia da noite que se abrem as portas para o Titanic sur mer, no Cais do Sodré, numa noite de terça-feira. Dá-nos as boas vindas um espaço que faz lembrar uma espécie de casa para quem está aberto a uma experiência teatral, íntima e experimental. A iluminação é escassa, mas agradável, e cria um ambiente acolhedor e adequado para o que ali vai ocorrer.

Lentamente a sala foi enchendo, até pelas dez da noite, quando parecia cheia com as cerca de 120 pessoas que se preparavam para ouvir poesia. Foi a essa hora que se abriram as hostes e os ouvidos para atentamente se ouvir Inês Francisco Jacob. Apresenta-nos uma introdução ao que ali vai acontecer: não pretende nenhuma pretensão; é só uma experiência, esta partilha de prosa e de poesia da sua autoria. Afinal, este humilde mote que alude ao seu arriscar dá nome à compilação dos poemas: Primeira Tentativa.

Dos seus lábios, caem cabelos perdidos: para o chão, para serem varridos, na almofada, e para a sopa. Temo-los na vida, como constante; ouvimos uma ode aos "filamentos encaracolados", uma descrição despretensiosa, escrita na noite anterior; fica por mim a minha questão: quantos cabelos que inspiraram esta poesia não se terão já perdido entretanto? Mas grata fico por eu não ser um desses cabelos, para poder estar presente na abertura desta noite; foi linda, e impressionou, pela dicção e a voz e as palavras; falando de algo que parece tão inócuo, tornou-se um belíssimo hino idílico àqueles que temos por banais, os nossos cabelos.
Inês ofereceu-nos, então, alguns poemas: uns do presente ano, outros do verão de 2016. As abelhas, então, foi um poema com o qual talvez mais público se pudesse identificar: tão parecidas connosco, o seu animal preferido foi então transformado em formato de poesia. Tivemos também direito a ouvir o poema das cores; e "O beijo no pão", de palavras mastigando um alimento que nunca seria comido, por ter caído ao chão. Interessante, mas narrando uma experiência a mim desconhecida, proporcionando-me uma oportunidade de não compreender o poema por dentro, mas de o questionar e procurar compreender visto de fora. Os dois últimos poemas foram também para mim enigmáticos; com metáforas visuais da natureza, tinham uma forte reminiscência rural, que aludiam e quase faziam sentir na pele a terra lavrada, a cerca, as cabeças de gado.

No fundo, senti-o como uma chamada de atenção: todos os poemas acabam por ter esse sentido, no qual apenas o poeta compreende inteiramente a sua própria visão; para os outros, mesmo que se identifiquem, será diferente.

Que seria da poesia e da arte se tudo fosse compreendido? Sinceramente, tudo aquilo que escrevi são fúteis tentativas de colocar em palavras sentimentos que não se traduzem senão pelo calor nas orelhas e o transcendente transmitido pelos versos com ou sem nexo, sob a ambiência de música que se entranhava no coração e o deixava no aqui e agora, com grande paz, se bem que com necessária e contraditória ligeira inquietação.


Logo se seguiu um trio de jovens, sem que esta ambiência familiar fosse interrompida senão pelos aplausos. Rita Loureiro, Zé Luís e Bárbara Bruno levaram uma selecção de textos dos Diários de Al Berto. Deles, transmitiram-me uma sessão de poesia íntima, muito pessoal, na banalidade do quotidiano que esses textos tinham registado.

Dos cafés com o JP e os telefonemas do Alexandre, retirei e guardei um grande amor pela escrita informal deste autor. Foi, apesar de tudo, uma invasão do seu espaço, e uma sintética biografia muito pessoal deste autor. Laivos de impressões sobre a sua vida: os eventos chatos, aborrecidos, com os quais todos nos identificamos; também o amor, abordado tão subtilmente abordado no meio de grande negatividade. Negatividade, essa, ainda assim, poeticamente e cruamente humana.

O banal, descrito dia a dia, pareceu um resumo da sua vida, provavelmente injusto, mas bonito; e interessante, pois foi uma escolha que passou desde certa parte da sua vida até à morte. Essa recta final tornou assim a prestação bastante íntima, e angustiante, pois, sabendo da sua morte, a sequência de palavras sobre dores, testes, análises, e dias no hospital, levariam, inevitavelmente, a um fim: ao seu fim.
Todos chegamos a esse fim, e esperamos, tal como Al Berto, que tenhamos a mesma certeza que ele; no meio de tanto sofrimento, um raio de luz: a esperança de que teria a "visita do JP", quando ele soubesse que estava internado. E, não havendo seguimento dos textos, sinto a garantia que ele o foi visitar, mesmo que Al Berto já não o pudesse cumprimentar uma última vez, e tomar um café num daqueles encontros aborrecidos.

Esta noite, um Al Berto e um JP tornaram-se meus amigos, ou pelo menos, conhecidos; e isso agradeço à excelente prestação desses três actores que ali declamaram e fizeram viver com eles estas histórias: os tons mais baixos e calmos; os mais intensos momentos; e as mais aborrecidas pragas.

Apesar não ter presenciado toda a noite, ficou a intenção de voltar mais vezes; a cumplicidade estava no ar, embora na atmosfera também estivesse o ponto negativo causado pelo fumo do tabaco nesse espaço fechado.

Nesta Terça de Poesia Clandestina, esta noite foi agradavelmente familiar; não é demais dizer. A perícia deveu-se também numa quota parte ao Dragão Inkomodo, e aos poetas e actores que, durante toda a noite, salvo alguns momentos, se complementaram com excelente sintonia; palavras, sons, instrumentalizações, transmitiram mensagens, e fizeram-me fruir de uma experiência de poesia muito característica, onde me senti em comunhão com o público, os poetas, quem os declamou, e acima, de tudo, a poesia.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Flipped: Um filme que nos troca as expectativas e dá um todo maior que as partes

10 Items or Less (2006): a beleza de descobrir alguém

Escola das Artes – O Filme (2018) é razoavelmente engraçado