Cantar, com Mallu, é Cantar com Sentido



O Capitólio estava cheio pelas 19h30 de quarta feira, dia 8 deste mês de Março, quando Mallu Magalhães entrou no palco. Antes dela, o edifício acolhera uma breve conversa de apresentação sobre a colecção de livros Anti-princesas, num contexto, próprio: o dia internacional da mulher.  Neste evento, foi também visualizada a estreia de uma curta-metragem: "Cantar com sentido", sobre uma anti-princesa, a cantora Violeta Parra.

Mas mais sentido teve ainda ouvir cantar, ao vivo, aquela ‘anti-princesa’ por quem a casa cheia esperara – Casa Pronta, como a primeira canção que ela cantou. Só "voz e violão", a presença da Mallu foi simples, e agradavelmente bonita.

Verdade foi que esse concerto acústico, intimista, teve uma humildade e simplicidade interessante; e as mãos da artista fluíam de forma incrível por cada guitarra, com excelente perícia, que se revelou numa expressividade muito variada e adequada às várias músicas e aos diferentes momentos das mesmas. Aliás, como já é seu hábito, pois a artista tem realizado concertos a solo, só com a sua voz e as suas guitarras de cordas de aço e de nylon.
Ainda assim, deixou um gostinho amargo nos ouvidos a falta do resto da banda; ainda que sem bateria e baixo, o que mais deixou saudade foi a ausência da voz grave de Marcelo Camelo, cuja presença complementaria o casal especialmente; mas, porque ‘não veio para jantar’, não tivemos o prazer de ouvir os seus coros na Janta.

Excerto da música Janta

Mesmo sem Marcelo para a acompanhar, a cantora apresentou um repertório de diferentes origens, mas que, essencialmente, eram composições suas. Dela e do marido, como na Janta; do mais recente álbum a solo, de 2011, Pitanga; e também bastantes músicas do projecto mais recente, a Banda do Mar. Ainda cantou dois covers de outros artistas, e outras canções suas. Tudo foram canções com uma sonoridade característica sua, de estilos relacionados com o indie folk, indie pop, MPB, ou samba. De grande leveza, acompanhada pela sua voz doce e o sotaque diferente, lembram-nos uma emoção que se liga a um sabor a verão que, para além de nalgumas destas canções, dificilmente se pode sentir, senão sob um leve calor do sol, de pés na areia de uma praia, ao pé do mar.

Houve, no entanto, uma certa ambiência frígida na sala que, inicialmente, interferiu com esse sentimento. Esta quietude revelou-se num certo acanhamento do público, que começou bastante silencioso, e nalguma timidez da cantora. No entanto, a pouco e pouco, essas barreiras foram sendo ultrapassadas. O riso de Mallu, no final de cada música, meio nervoso, mas contente, era acolhedor e muito humano, tal como eram os seus breves comentários para o público. "Eu falo meio enrolado", confessou ela, que às vezes, não sabe "se vocês perceberam o que eu disse ou não", temendo uma barreira linguística entre ela, de sotaque brasileiro, e o público português. Sente-se mais à vontade a cantar do que a falar, pelo que pede desculpa se não falar muito.

Não nos importamos; sente-se esse à-vontade na sua voz, quer nas palavras que canta, nos assobios, ou nos 'nanana'; faz até alguns momentos improvisados, explorando a música e dando alguns jeitos exploratórios interessantes. Em alguns momentos, com essas experimentações na voz, faz lembrar Camille; como aconteceu em Nana (VII), e em Mais Ninguém; noutros, também lembra Luísa Sobral. E lembra também ela própria, livre de experimentar e brincar com as melodias, sozinha em palco, onde pôde ser; como disse em Seja Como For, "não importa quando, como, onde, somos nosso próprio rei".


Mais Ninguém

A partir dessa canção, o ânimo da sala começou a notar-se mais. Mallu decide passar à frente da música que ia tocar: "essa é meio triste. Vou cantar uma legal", e transitar para Sambinha Bom. Com esta música, já mais conhecida, a assembleia tornou-se um grande coro de vozes animadas conhecedoras da música.
Cantou, em seguida, uma música de Jorge Ben: Por Causa de Você, Menina, que já é costume de outros concertos; e, depois, Baby, de Os Mutantes.

Em jeito de desculpa, conta, então, como esteve doente há 15 dias, e ainda está em recuperação. Mas tal não a impede nem um pouco de terminar o concerto com ainda mais força. Rendido aos singles  e faixas mais conhecidas, o público em peso acompanhou-a nas três músicas finais. Delas, é necessário destacar logo a primeira: Mais Ninguém, onde, ficando só ela e nós – “ficamos só eu e você, fazemos a festa” –, cantou, e tocou, com grande expressividade e, mais ainda do que perícia, com emoção. Em Velha e Louca, deu espaço ao público para cantar o verso, tal era a força com que este cantava; mas, coincidentemente, dir-se-ia que velhos e loucos estava, não apenas o público, que não cantou as mesmas letras em unissono, como, momentos mais tarde, também Mallu, que se enganou. O que podia ter sido embaraçoso foi facilmente desenrascado: a bonita informalidade do momento fê-la apenas parar, rir-se, recapitular as letras bem rapidinho e recomeçar a partir do início do refrão.

A música com que terminou, após uma mensagem final de celebração do dia da mulher, foi Muitos Chocolates, revelando, talvez, a sua determinação de mulher que é capaz de tudo: e em troca só exige cafuné, massagem no pé, e muitos chocolates, "só p'ra mim". Essa música, com letra tão alegre, revela esses desejos tão simples e banais, e bastante humanos, como qualquer um de nós tem; e que tornam a música dela tão natural e leve que é difícil de não gostar.

E foi uma alegre forma de terminar este concerto, que, de certa forma, foi também bastante intimista e natural: a informalidade e simplicidade de ser apenas ela e o seu violão, cantando de forma pessoal, embora não tenham sido grandiosos, foram agradavelmente alegres e suficientes. Cantando como quis, simplesmente; cantando da forma que nesse momento fez mais sentido. Neste fim de tarde, pudemos ouvir Mallu cantar, à sua maneira; e cantar, com ela, foi cantar com sentido.

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No final, ainda tivemos direito a fotografar o tão bonito alinhamento, escrito à mão pela Mallu; obrigado ao fã que pediu ao staff por essa folha, tão adorável, escrita até às cores. Fiquem então com o alinhamento, transcrito, e a fotografia da folha usada pela Mallu para se orientar no concerto.

Alinhamento:
1 – Casa Pronta
2 – Ô Ana
3 – Me Sinto Ótima (Banda do Mar)
4 – Nanã (VII)
5 – Lost Appetite
6 – Janta (Marcelo Camelo)
7 – Olha Só Moreno
8 – Seja Como For (Banda do Mar)
9 – Sambinha Bom
10 – Por Causa de Você (cover, Jorge Ben)
11 – Baby (cover, Os Mutantes)
12 – Mais Ninguém (Banda do Mar)
13 – Velha e Louca
14 – Muitos Chocolates (Banda do Mar)



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