Cantar, com Mallu, é Cantar com Sentido
O Capitólio estava cheio pelas 19h30 de quarta feira, dia 8 deste mês de Março, quando Mallu Magalhães entrou no palco. Antes dela, o edifício acolhera uma breve conversa de apresentação sobre a colecção de livros Anti-princesas, num contexto, próprio: o dia internacional da mulher. Neste evento, foi também visualizada a estreia de uma curta-metragem: "Cantar com sentido", sobre uma anti-princesa, a cantora Violeta Parra.
Mas mais sentido teve ainda ouvir
cantar, ao vivo, aquela ‘anti-princesa’ por quem a casa cheia esperara – Casa
Pronta, como a primeira canção que ela cantou. Só "voz e violão", a
presença da Mallu foi simples, e agradavelmente bonita.
Verdade foi que esse concerto
acústico, intimista, teve uma humildade e simplicidade interessante; e as mãos
da artista fluíam de forma incrível por cada guitarra, com excelente perícia,
que se revelou numa expressividade muito variada e adequada às várias músicas e
aos diferentes momentos das mesmas. Aliás, como já é seu hábito, pois a artista tem realizado concertos a solo, só com a sua voz e as suas guitarras de cordas de aço e de nylon.
Ainda assim, deixou um gostinho
amargo nos ouvidos a falta do resto da banda; ainda que sem bateria e baixo, o
que mais deixou saudade foi a ausência da voz grave de Marcelo Camelo, cuja
presença complementaria o casal especialmente; mas, porque ‘não veio para
jantar’, não tivemos o prazer de ouvir os seus coros na Janta.
Excerto da música Janta
Houve, no entanto, uma certa
ambiência frígida na sala que, inicialmente, interferiu com esse sentimento.
Esta quietude revelou-se num certo acanhamento do público, que começou bastante
silencioso, e nalguma timidez da cantora. No entanto, a pouco e pouco, essas
barreiras foram sendo ultrapassadas. O riso de Mallu, no final de cada música,
meio nervoso, mas contente, era acolhedor e muito humano, tal como eram os seus
breves comentários para o público. "Eu falo meio enrolado", confessou
ela, que às vezes, não sabe "se vocês perceberam o que eu disse ou
não", temendo uma barreira linguística entre ela, de sotaque brasileiro, e
o público português. Sente-se mais à vontade a cantar do que a falar, pelo que
pede desculpa se não falar muito.
Não nos importamos; sente-se esse
à-vontade na sua voz, quer nas palavras que canta, nos assobios, ou nos
'nanana'; faz até alguns momentos improvisados, explorando a música e dando
alguns jeitos exploratórios interessantes. Em alguns momentos, com essas experimentações na voz, faz lembrar
Camille; como aconteceu em Nana (VII), e em Mais Ninguém; noutros, também lembra Luísa
Sobral. E lembra também ela própria, livre de experimentar e brincar com as
melodias, sozinha em palco, onde pôde ser; como disse em Seja Como For,
"não importa quando, como, onde, somos nosso próprio rei".
Mais Ninguém
Cantou, em seguida, uma música de
Jorge Ben: Por Causa de Você, Menina, que já é costume de outros
concertos; e, depois, Baby, de Os Mutantes.
Em jeito de desculpa, conta,
então, como esteve doente há 15 dias, e ainda está em recuperação. Mas tal não
a impede nem um pouco de terminar o concerto com ainda mais força. Rendido aos
singles e faixas mais conhecidas, o público em peso acompanhou-a nas três músicas
finais. Delas, é necessário destacar logo a primeira: Mais Ninguém,
onde, ficando só ela e nós – “ficamos só eu e você, fazemos a festa” –, cantou,
e tocou, com grande expressividade e, mais ainda do que perícia, com emoção. Em Velha e Louca, deu espaço ao público para cantar o verso, tal era a
força com que este cantava; mas, coincidentemente, dir-se-ia que velhos e
loucos estava, não apenas o público, que não cantou as mesmas letras em
unissono, como, momentos mais tarde, também Mallu, que se enganou. O que podia
ter sido embaraçoso foi facilmente desenrascado: a bonita informalidade do
momento fê-la apenas parar, rir-se, recapitular as letras bem rapidinho e
recomeçar a partir do início do refrão.
A música com que terminou, após
uma mensagem final de celebração do dia da mulher, foi Muitos
Chocolates, revelando, talvez, a sua determinação de mulher que é capaz
de tudo: e em troca só exige cafuné, massagem no pé, e muitos chocolates,
"só p'ra mim". Essa música, com letra tão alegre, revela esses
desejos tão simples e banais, e bastante humanos, como qualquer um de nós tem; e que tornam a música dela tão natural e leve que é difícil de não gostar.
E foi uma alegre forma de
terminar este concerto, que, de certa forma, foi também bastante intimista e natural: a
informalidade e simplicidade de ser apenas ela e o seu violão, cantando de
forma pessoal, embora não tenham sido grandiosos, foram agradavelmente alegres
e suficientes. Cantando como quis, simplesmente; cantando da forma que nesse
momento fez mais sentido. Neste fim de tarde, pudemos ouvir Mallu cantar, à sua
maneira; e cantar, com ela, foi cantar com sentido.
~
No final, ainda tivemos direito a fotografar o tão bonito alinhamento, escrito à mão pela Mallu; obrigado ao fã que pediu ao staff por essa folha, tão adorável, escrita até às cores. Fiquem então com o alinhamento, transcrito, e a fotografia da folha usada pela Mallu para se orientar no concerto.
Alinhamento:
1 – Casa Pronta
2 – Ô Ana
3 – Me Sinto Ótima (Banda
do Mar)
4 – Nanã (VII)
5 – Lost Appetite
6 – Janta (Marcelo Camelo)
7 – Olha Só Moreno
8 – Seja Como For (Banda
do Mar)
9 – Sambinha Bom
10 – Por Causa de Você (cover,
Jorge Ben)
11 – Baby (cover, Os
Mutantes)
12 – Mais Ninguém (Banda
do Mar)
13 – Velha e Louca


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