Artes Plásticas I e a maleabidade artística: de estudante a professor, de professor a aluno
Artes Plásticas I é uma exposição que esteve presente na Escola Superior de Educação, em Lisboa, ente 6 e 18 de Fevereiro. Esta conjugou um conjunto de desenhos feitos pelos alunos do 1º ano da
Licenciatura em Educação Básica: dispostos em quatro conjuntos de obras, em
diferentes quadros de cortiça, estão obras de diferentes alunos realizados na
cadeira que dá nome à exposição.
Num espaço de
passagem, muito frequentado pelos alunos e docentes, é difícil não reparar e
reter o olhar nos trabalhos, nem que seja por meros segundos. No entanto, assim
que o olhar pede por mais, depara-se com a falta de legendas que identifiquem a
obra - e, pior ainda, o autor. Por entre percursos de leitura visual,
encontramos, ocasionalmente, um nome escrito a caneta - Mafalda - e outro
pintado a lápis - Catarina - que, solitários, mas lado a lado, são as 'ovelhas
negras' de um rebanho de obras anónimas.
Se é meu
desejo destacar algumas obras, estas teriam de passar apenas por uma breve
descrição; e é com pena que não as posso referenciar, nem aos autores das mesmas, com maior justiça e precisão.
A exposição
tem então quatro partes. A primeira, logo à esquerda, no sentido de quem entra
no espaço, é bastante abstracta. Folhas A4 com padrões e motivos geométricos
coloridos são interrompidos por formas bidimensionais rectangulares, no centro.
Dentro destas, há numerosas sugestões de continuidade e de ligação com o
rectângulo exterior, sem que, no entanto, representem o mesmo 'cenário'. Devo
dizer que desconheço o exercício.
Seguem-se,
então, um outro tipo de desenhos, numa secção também muito habitada por padrões. Estes
são também coloridos, mas as páginas, no geral, não são tão cheias - não são tapeçarias barrocas, procurando encher exageradamente todos os vazios. Também
é muito habitada por padrões. Deste capítulo da exposição destaco uma obra
simples que, embora se possa dizer um pouco cliché, não deixou de provocar em
mim empatia para com ela: no meio de formas geométricas pequenas, circulares,
coloridas, há uma silhueta feminina com um guarda-chuva aberto, escondendo-se
destas 'gotas de água' que não o são, que são apenas algo não identificável.
O terceiro
quadro tem mais desenhos. Estes foram aqueles que me despertaram mais à
atenção, tanto pelas execuções, como pela originalidade, e como pelo desafio
que elas devem ter sido.
Baseadas,
muito provavelmente, no método do borrão de Alexander Cozens, são um exercício
que nos relembra também, naturalmente, das brincadeiras artísticas que
realizámos no infantário e na escola primária. Tal não é de estranhar, visto
que se trata de uma exposição de alunos de Educação Básica - não se pode ser
professor sem antes ser aluno...
As folhas
manchadas por tinta, dobradas ao meio, causam efeitos borboleta, quer estejam
unidos no centro da folha, quer sejam manchas simétricas separadas. Os alunos
exploraram, então, as formas imaginárias que visualizaram nas manchas. Temos
composições muito diferentes: desde a conhecida borboleta ao abstraccionismo
colorido do cartaz da exposição. Mas também interessantes derivações, onde uma
mancha verde, do lado esquerdo da folha, é um animal de pescoço comprido, e do
lado direito, um adorável ouriço-cacheiro.
Passando para
o lado direito existem mais duas ou três partes. Ambos os conjuntos são
baseados em obras já existentes de outros artistas, e reconstituem essas
composições a partir da colagem de recortes de folhas coloridas. É fácil gostar
delas esteticamente, pois um Van Gogh é sempre um Van Gogh. Neste conjunto há
no geral uma agradabilidade automática, mas há alguns especialmente
interessantes e bem realizados. Um dos alunos fez uso dos recortes como
pequenos fragmentos de cerca de 2 ou 3 centímetros; outro foi mais ousado,
fazendo de uma zona luminosa da cara ou de uma perna uma grande porção uniforme
de folha, e as zonas escuras seguindo o mesmo raciocínio.
Terminamos
assim a exposição com uma sensação de satisfação despretensiosa. É uma simples
exposição colectiva de alunos que estudam educação básica, e essa certeza
apazigua o olhar e torna a observação uma apreciação das obras com um gosto que
é, quer se queira quer não, desligado da autoria e biografia de cada autor.
Cada desenho faz-se por ser parte desse conjunto, que lembra o sonho de criar,
presente nos jovens estudantes de Educação Básica, que poderão ser professores - e naqueles que, assim, com
eles estabelecem já ligação: os pequenos alunos do Ensino Básico.

Comentários
Enviar um comentário