A Bússola Dourada, um livro fascinante como a Aurora Boreal
A Bússula Dourada - de Phillip Pullman
Parte de uma trilogia maior, His Dark Materials, a Bússula
Dourada é o primeiro que dá origem e entrada num universo – ou mais? – onde
vive Lyra, em que os humanos têm sempre um daemon que os acompanha e parece ser
parte da sua própria alma, essência e vida. A Bússula Dourada apresenta um
mundo fascinante por estes aspectos e também pelos cenários que percorre,
sendo, ocasionalmente, intrigante e enigmática; interessante e fascinante; ou,
por vezes, apesar de tudo, de narrativa um pouco arbritária, com personagens
não profundamente desenvolvidas na sua individualidade e compleição.
É necessário deixar o disclaimer
de que o li na sua língua original, inglês, que não é a minha primeira língua.
É possível que seja por isso que algumas expressões soem com um toque
estrangeiro. Escrito na década de 90, há expressões que soam mais antiquadas do
que isso e não se enquadram no estilo de escrita geral, direccionado,
sobretudo, para um público-alvo jovem. Também é possível que essa seja a razão
pela qual o primeiro capítulo foi o mais críptico, na introdução de demasiadas
personagens de forma muito súbita – trazendo a consequência de dificilmente
reconhecê-las mais tarde.
Mas deixemo-nos destes pequenos detalhes, porque o livro tem
uma história rica a contar. A Bússula Dourada é um livro de fantasia que
arriscaria classificar também de ficção científica. O universo criado é
extremamente similar ao ue conhecemos, mas é também extremamente diferente. As
subtilezas da sua realidade são intuitivas e despertam perguntas que, na minha
compreensão, são sempre mais tarde respondidas. O mundo de His Dark Materials é
rico em magia para os nossos olhos – mas extremamente científico nos seus, o
que o torna ainda mais especial.
Há algo de fascinante na exploração deste mundo, e o que é
curioso é que as próprias personagens o querem explorar, por meio da religião
(bastante familiar com as religiões cristãs) ou por meio da ciência, procurando
compreender misticismos ainda não descobertos do seu próprio mundo – ambos ocasionalmente
falhando na ética das suas investigações. O Pó; os daemons; o pecado original;
as metáforas são ricas, e a ciência também, fazendo-nos embrenhar profundamente
em questões de moral, ética, e ciência, enquanto exploramos o mundo de forma
encantada.
As personagens deste livro são interessantes, sobretudo
porque devemos compreendê-las segundo as ordens do seu mundo: os humanos têm
sempre um daemon que faz parte de si e são um só; compreendemos os sentimentos
de um se olharmos para o outro; e muitos outros aspectos que enriquecem
profundamente as personalidades das personagens devido a estas subtilezas da
criação deste mundo. Mas, é claro, a protagonista é a que mais se destaca (e,
depois dela, Mrs. Coulter). Ainda assim, Lyra – e o seu daemon, Pantalaimon –
acabam por ser, por vezes, peças de um jogo de xadrez, usados para contar uma
história. É, naturalmente, uma questão de opções e preferências, no entanto,
acaba por ser um ponto crucial na leitura. A exploração das personagens com as
suas personalidades e universos interiores não são a prioridade – isto ocorre
sobretudo por meio das suas acções, e é um método que aceitamos.
Fica por dizer apenas que, embora este livro seja
absolutamente rico na exploração do seu mundo e de pleno de metáforas curiosas,
embrenhando o leitor numa vontade imensa de o conhecer melhor, em conexão com a
protagonista – poderia apenas beneficiar de uma estrutura menos rítmica e
previsível. As ocasionais batalhas, raptos e interrupções que guiam a narrativa
acabam por tornar-se cansativas, métodos de avançar com a mesma que serão,
porventura, agradáveis a leitores que gostam de ler descrições de batalhas, mas
não tanto para outros como eu. A ciência e as personagens são aspectos ricos e
extremamente envolventes; e mesmo ocasionais percalços seriam bons, nas minha
opinião; mas em exagero, arriscam tornar-se aborrecidos e pouco relevantes para
a história, pois soam a alavancas fortuitas para avançar com uma nova
descoberta na narrativa, talvez mesmo arbitrários.
Com tudo isto, ficou a vontade de ler o volume seguinte. O
final do livro tem esse intuito, não proporcionando uma finalização muito satisfatória
para quem procure lê-lo apenas sozinho – mas acaba por fazê-lo agradavelmente
bem para quem procura ler o resto da série, como quem fecha uma porta para
abrir uma janela. É grande a vontade de explorar mais este(s) universo(s) e
compreendê-lo(s) melhor, e espero que os volumes seguintes cumpram este desejo
mantendo a mesma qualidade ou superando as expectativas que a crítica
geralmente faz dos mesmos.
O mundo d’A Bússula Dourada encantou-me. Espero que a Aurora
me traga um mundo que me encante ainda mais.

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