Entrar de costas para o mundo e sair de frente: «Laços – Mais do que Viajar»
No Museu do Oriente de 21 de Julho a 22 de Outubro
Encontra-se no Museu do Oriente uma exposição retrospectiva
do fotógrafo viajante Nuno Lobito. Este é um dos dois portugueses que mais
países visitou – 204 –, e considera-se o único a fazê-lo como viajante e não
como turista. Começou esta missão pessoal em 1988 e terminou na data simbólica
de 11/11/2011. Viu o mundo, e o mundo viu-o; cresceu enquanto pessoa; e
fotografou esta epopeia: cada lugar onde passou, cada momento e experiência,
cada amigo que conheceu.
De uma vasta colecção de fotografias e memórias, esta
exposição seleccionou 83 fotografias de cerca de 50 países diferentes. Embora o
museu não explicite a informação, a selecção foca-se essencialmente em
fotografias captadas na Ásia, América Latina e África; há também um pequeno
número de fotografias representantes da Oceania, América do Norte, e da Europa
apenas uma, de Portugal.
A colecção exposta temporariamente é organizada por 4 zonas,
no entanto, as fotografias, afastadas alguns centímetros entre elas, expostas
em molduras em frente a paredes brancas, formam uma linha ininterrupta, que dá
a volta à sala a partir da porta que é entrada e saída. Além dessa parede,
existe também um pilar no centro de uma zona à esquerda da sala, com 8
fotografias em volta; e existem também 5 fotografias num corredor atrás da
parede à entrada. Esse corredor conduz até uma sala aberta onde, para além das
fotografias, também se encontra um ecrã a passar um documentário sobre a grande
viagem de Nuno Lobito.
As obras não se encontram organizadas cronológica ou
geograficamente; mas dispostas de uma forma estética; e pode interpretar-se
pessoalmente também sentido conceptual.
| "A riqueza das cores e a intensidade dos cheiros num mercado em Istanbul" (Turquia, 2002) |
Seguindo pelo lado esquerdo, as primeiras fotografias que encontramos têm um aspecto introdutório. “A riqueza das cores e a intensidade dos cheiros num mercado em Istanbul” mostra uma pessoa de costas para nós, avançando da escuridão para a luz; e abre-nos a porta para entrar um novo mundo – que é aquele em que sempre vivemos –, convidando-nos a conhecê-lo melhor. Seguem-se cores vibrantes em retratos cúmplices acompanhados pelos seus títulos, sinceros e descritivos, e por vezes com uma genuinidade que nos traz um sorriso ao rosto. Este é o caso, por exemplo, de “Quem sabe se um dia terei um igual”: o retrato de uma jovem da Namíbia que segura o seu pequeno bebé.
Encontram-se, então, fotografias mais paisagísticas. Estas
são quase matemáticas, numa geometria arquitectónica acentuada nas quatro obras;
estas unem-se por um azul celeste contido em cada uma: do céu no deserto da
Líbia, passando pela frescura oceano do Kiribati, pela criança que se confunde
com a arquitectura (pintada de azul) no Senegal, até ao casal “à espera”, em
frente da sua cabana na Namibia. O mesmo céu, sobre cada paisagem; o mesmo céu
das paisagens de cada um de nós, quando neste momento olharmos pela janela.
Surgem então 3 fotografias de fundo branco, que estabelecem
uma transição para um conjunto de matiz preto e branco. Destes exemplares
destaca-se o carácter de intensidade emocional, junto com experiências mais
espirituais: “Um olhar irreverente que ficou para sempre comigo” que nos fita
também a nós; “Inshala – O Poder da Fé” que nos arrebata pela técnica que
convém força a partir da luz, da sombra, e do contraste, e pelo enquadramento
fotográfico e conceptual: em pleno tempo de guerra, em 2015, em Gaza. E “Convertido
ao poder da mãe natureza”, uma paisagem de grande escala onde se enquadra a
pequena figura de alguém que a observa, remete para a pequenez do Homem em
relação ao mundo, num tom que lembra, de certa forma, as pinturas românticas de
Friedrich.
O tom torna-se então mais despreocupado. Uma das duas únicas
fotografias urbanas da exposição mostra uma jovem a almoçar sushi nos Estados
Unidos, num banco de jardim. Da jovem passamos para duas crianças, as
representantes de Portugal. Num retrato curioso, seguem-se mais dois
presumíveis irmãos: “É tua!” (Amazónia, Brasil, 1998) capta um momento de
comunicação entre o fotógrafo e o fotografado, em que este último estende uma
faca ao primeiro. O momento torna-se pessoal e íntimo e leva-nos até à cena, a
partir de uma cena tão simples que nos dá a revelar um olhar desafiante de
criança a crescer.
Não é apenas esta cena que nos torna parte do cenário. As
fotografias seguintes, também todas na Amazónia, transportam-nos para cenários
familiares, tal como “Uma família familiar”, “Um dia exaustivo na Chácara”,
dentro de quatro paredes e por fim – fora delas, fechando o ciclo com uma
criança que olha de longe para uma casa –, “Uma boa tribo Macuxi, no Brasil”.
Nos retratos seguintes o foco muda subtilmente para a
simplicidade e despreocupação. A inocência de “Uma Lágrima Doce”, de um bebé
protegido nos braços da mãe, traz uma inegável sensação de amor e de paz (por
muito cliché que possa soar afirmá-lo). Mãe e filho fitam-nos, deixando a
sensação de que escondem uma história indecifrável. “Doçura no olhar”, que
mostra presumivelmente duas irmãs numa cama de rede, continua o tema do olhar e
da inocência despreocupada das crianças. “Meditação” termina este conjunto com
uma menina que já desviou o olhar da câmara e se perde nos seus próprios
pensamentos, com um olhar vago e mordendo o tecido da sua cama de rede.
À volta deste pilar encontram-se também a fotografia de “um
amigo”, sacerdote numa tribo, e a perturbadora fotografia da fronteira entre a
China e a Coreia do Norte, que transmite um pesado silêncio de cenário inóspito
a preto e branco, acentuado, talvez, pelo facto de ser a única fotografia sem
presença humana da exposição.
Continuando a percorrer a exposição, entra-se no que
considero ser a segunda metade da mesma a partir de uma fotografia mais
escondida: “Regresso às origens em rituais que nos aproximam das forças da
natureza”. Noutra parede, somos introduzidos a novos sorrisos. Destaca-se “De
onde vem? Onde nasceu? Qual é o seu país?” (Mali, 2007), o título interpela-nos,
pela ambiguidade entre o existencialismo e a simples interpretação de que estas
foram as perguntas que o fotografado fez a Nuno Lobato, quando o conheceu; o
que novamente nos remete para o lugar e momento fotográfico.
Esta zona da exposição dá a sensação de entrarmos num mundo
mais concreto e maduro, mas em que se sente maior distanciamento emocional dos
retratados. Isto entende-se logo a partir do retrato de um homem mais velho,
“Rugas de sabedoria num rosto cansado mais confiante”, no início do percurso; e
a longa sequência de fotografias do quotidiano que se lhe seguem. Delas
destacam-se as cores suaves mas agradáveis: das cenas de pesca; das fotografias
de viagem dos comboios; da “Hora da maquilhagem”, também num comboio; da mãe de
alimenta um filho, levando-lhe uma colher à boca; e até nas fotografias da
parede oposta, em que o estilo do artista já é mais maduro, onde se encontram o
cemitério de Timor-Leste, uma senhora a limpar as ruas, uma cabeleireira
cortando o cabelo a um cliente, e uma cena citadina em Tóquio – a única
fotografia nocturna da selecção.
| O passar dos dias, na preparação daquilo que permite sustentar a própria vida (Tunísia, 2010) |
| Rostos escondidos (Quirgistão, 2001) |
A sequência continua com uma fotografia que é “Modo de relaxar”
para nós tanto como para as duas mulheres que riem, recostadas junto a um cais
de um rio na Índia. Depois desta, vêem-se imagens que parecem pinturas, com
tratamento de imagem saturado e contrastado, como é o caso de “Um sorriso
tímido de quem já não teme a objectiva sublinha o exotismo das mulheres da
Namíbia” (Namíbia, 2010). “A expressão doce e despreocupada de quem ainda não
carrega o peso da vida” parece citar uma fotografia já falada, do extremo
oposto da sala, com uma diferente rapariga a segurar entre os dentes a cama de
rede onde relaxa. Por fim, “Momento único de reflexão em Santa Marta, na
Colômbia” tem um olhar distanciado, em que a legenda parece imaginar uma
narrativa para um rapaz que nem nós nem o autor conhecemos.
Em contraste com esta fotografia mais comum, a parede
seguinte apresenta uma sequência em que as cores voltam a florescer. São
momentos estéticos, divertidos e que interpelam o espectador com maior
relevância. “Requinte e sofisticação ao alcance de poucos” mostra uma mulher
sentada em frente uma parede adornada com tapeçarias padronizadas e coloridas;
esta imagem, de estilo semelhante a “Quase se Confunde com a Arquitectura”,
distingue-se das outras esteticamente; nela exalta-se arquitectura, texturas; e
parece ao mesmo tempo ser pintura, de forma mais real, mais interessante e
melhor conseguida do que quando o autor exacerba esta percepção pelos
contrastes e saturação em retratos como “Quem sabe se terei um dia terei um
igual”.
| Requinte e sofisticação ao alcance de pouco (Turquemenistão, 2001) |
| Quem sabe se um dia terei um igual (Namíbia, 2010) |
A última parede, em jeito de despedida, alude à viagem
novamente. O rapaz que trepa uma janela – “Opss… fui apanhado! E então? Brincar
é mesmo assim”, é uma fotografia dinâmica, com movimento, que indicia que, em
poucos segundos, o menino que vemos irá saltar para o outro lado da janela e
seguir correndo, numa brincadeira. Destaca-se também “Eu e o meu brinquedo” (Perú,
1998), em que um rapaz, presumível pastor de lamas, abraça um dos membros do
rebanho enquanto fita a câmara de olhos semicerrados, possivelmente demasiado
ocupado com outros pensamentos para se preocupar com a fotografia. Curiosamente
o título lembra o livro de C.S. Lewis “O Cavalo e o Seu Rapaz”, em que os
cargos normalmente supostos são invertidos. Assim, também nos faz questionar se
o brinquedo será o lama para o pastor, ou o pastor para o lama.
| Eu e o meu brinquedo (Peru, 1998) |
Por fim, a penúltima fotografia é a viagem derradeira. “Um
caminho difícil e poeirento tão diferente do nosso” (Burquina Faso, 2007). Se a
primeira fotografia nos mostrava alguém a caminhar de costas para nós, a
última, com a qual deixamos a exposição, tem os retratados virados para o
espectador. A mulher monta um cavalo branco, que carrega consigo, também, o
peso de sacos e embalagens dos seus donos; à frente segue o marido, a pé, mais
junto a nós. Como diz o título, o cenário é desértico, seco; é um caminho
difícil e poeirento. Acidental ou propositadamente, este retrato tem algo de
bíblico e faz lembrar a sagrada família, quando José e Maria fugiram para o
deserto antes de nascer o seu filho.
A longa e difícil viagem, num caminho poeirento, ainda agora
começou. Mas se antes olhávamos os outros de costas afastando-se de nós, agora
somos convidados a olhá-los de frente e ir ao encontro deles. O mundo espera
por nós como esperou por Nuno Lobato na sua grande viagem.
Depois de visitar esta exposição percebe-se que Laços – Mais
do que viajar se foca na presença humana das viagem de Nuno Lobato, que afirma
ele mesmo ter sido um caminho solitário animado pelas emoções partilhadas com
quem conheceu.
Em termos temáticos, a selecção especifica-se por imagens
exóticas, que procuram a diferença de culturas. No entanto fá-lo por omissão,
pois é irrisória a presença de fotografias da cultura ocidental. O tema
principal são as culturas da América Latina, Ásia e África; as diferenças paisagísticas,
arquitectónicas e de vestuário, de traços biológicos e de costumes.
Em termos pictóricos é inegável o protagonismo da cor. A
sequência de fotografias liga-se organicamente por ela numa linha estética. Das
fotografias vivas com laranjas, no início, para a transição a preto e branco; e
na zona das fotografias do quotidiano denotam-se uma transição do azul para o
esverdeado. E em toda a exposição acaba por ahver uma forte presença da cor.
Quase sempre muito saturada, ora convém paz, ora alegria, ora movimento.
Muitas vezes o autor convém às imagens expressividade e
empatia. No entanto, por vezes, neste tratamento da fotografia o retratado toma
um aspecto irreal, como se se tratasse de uma pintura, como em “Quem sabe se um
dia terei um igual”, uma obra já mencionada. Tal não é necessariamente uma
desvirtude da fotografia em si, mas por se contextualizar entre outras
fotografias de estilos diferentes, pode destoar e instigar desconfiança. Por
vezes, também é intrusiva a técnica que destaca o retratado da paisagem: depois
de se notar a primeira vez, é impossível ignorar a presença de ténues auras,
que aclaram o fundo, em volta dos rostos e corpos em certas fotografias. São
exemplo disso “Momento único de reflexão em Santa Marta, na Colômbia” e “Um
olhar irreverente que ficou para sempre comigo”. No geral, no entanto, a cor é
dos atributos mais expressivos das fotografias na exposição, e os retratos de
rosto são também muito pessoais e expressivos.
Os títulos são também interessantes, e merecem menção pela
sua missão. Assim, o trabalho exposto tem o grande auxílio dos mesmos para
trazer maior carga emocional aos momentos fotografados. São eles que
estabelecem relação entre as memórias do autor e o espectador; ligam-nos ao
momento, permitindo-nos imaginar a situação, e meditar, sorrir ou até mesmo rir
ao imaginá-la. As legendas, no entanto, por vezes são demasiado compridas e confundem
a percepção; por vezes complexificam-se demasiado, na tentativa de sintetizar
longas histórias no espaço pequeno de um título.
Há apenas mais um pormenor importante a denotar da
exposição: a narrativa. Embora não seja uma obrigação, é uma virtude para o
museu ser capaz de sintetizar devidamente o tema de uma exposição para o seu
público. Mas tal não acontece.
A folha de sala promete uma exposição retrospectiva
“composta por uma selecção de 83 fotografias e um documentário sobre as suas
viagens aos 204 países do mundo”; a procura dos “contrastes da alma, os
paradoxos de um planeta de extremos, revelando um mundo que é tão sofisticado
como brutalmente selvagem”, e fotografias que “simbolizam assim a riqueza
humana e a expressão de cada cultura”.
Mas, por omissão ou por falta de especificação, o que esta
descrição indicia é que se irá, de facto, ver na exposição uma diversidade de
culturas, um equilíbrio de países. É, naturalmente, complicado integrar 204
países em 83 fotografias; mas é decepcionante prometer fazê-lo (mesmo que seja
implicitamente), e acabar por confundir o espectador. Conforme se avança na exposição,
perguntamo-nos se irá haver, no final, uma parte mais dedicada à cultura
ocidental, e surge alguma distracção das próprias obras conforme a dúvida se
vai intensificando.
Seria de supor que uma exposição que apresenta “os paradoxos
de um planeta de extremos” dedicasse mais fotografias ao “sofisticado”, bem
como, até, ao “brutalmente selvagem”. Talvez um dos poucos exemplos desta
afirmação seja a fotografia que conjuga, de certa forma, a tradição com a
civilização “Contraste em a modernidade do espaço e a tradição milenar”
(Fronteira Irão/Afeganistão). Quanto ao “brutalmente selvagem”, o mais próximo
que se verifica é “Regresso às origens em rituais que nos aproximam das forças
da Natureza” (Indonésia, 2007). Os paradoxos não são, infelizmente,
representados na exposição como é prometido; têm presença apenas na imaginação
do espectador. Resta a dúvida e o consolo de procurarmos, nós mesmos, uma
explicação na sua própria imaginação, para esta selecção confusa.
Possivelmente, esta dedica-se às memórias mais queridas ao autor; ou pode ter
sido uma selecção especialmente estética ou exótica, procurando os países mais
“diferentes” de Portugal (embora exista uma única fotografia isolada, desse
mesmo país, o único europeu representado na exposição).
No entanto, podemos tentar colocar de lado essas infelizes
barreiras de desilusão e confusão causadas por uma narrativa pouco explícita. E
assim, novamente, compreender a exposição de uma nova maneira. E depois da
nossa entrada olhando um mundo desconhecido de costas para nós e, como nos é
feito o convite, voltarmos em força a querer conhecê-lo, e sair para a nossa
vida de braços abertos, encarando de frente quem de nós se aproxima; encarando
de novas formas este novo mundo para o podermos conhecer. O mundo espera por nós.
| Um caminho difícil e poeirento tão diferente do nosso (Burquina Faso, 2007) |

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