O Fotógrafo Acidental e a afortunada experiência de uma acidental observadora
O Fotógrafo Acidental - Serialismo e Experimentação em Portugal, 1968-1980
Culturgest
É por acidente do destino que entramos nesta galeria expositiva de fotografia. E foi também pelo acidente que surgiram as obras que se encontram nela.
Foram vários os artistas portugueses que se dedicaram a explorar a fotografia, ainda nos seus inícios, de uma forma artística. Alguns deles foram ângelo de Sousa, Alberto Carneiro, Helena Almeida, Vítor Pomar, Fernando Calhau, Leonel Moura e Julião Sarmento; são obras destes fotógrafos que se encontram a habitar a Culturgest até 3 de Setembro.
Não é um acidente a junção das obras na galeria. Como diz o catálogo, estas têm em comum, especialmente, o facto de serem séries de fotografia entre 1968 e 1980. Cada série se vai afirmando com as suas especificidades e variâncias, mas, curiosamente, podem estabelecer-se paralelos entre todas, alguns bastante arrebatadores.
Na primeira sala observamos a visão de um observador. Ângelo de Sousa caracteriza-se pela sua dimensão de voyeur com as imagens a preto e branco registadas do alto da janela da sua casa. Ao avançar pelas fotografias sente-se a brevidade dos momentos e da passagem efémera dos transeuntes na rua. Nem sequer Ângelo os conheceu; eles passaram, e desapareceram para sempre da sua vida, e nós, de uma janela longínqua em tempo e espaço, não podemos fazer mais do que imaginar as suas identidades. É premente o conceito de passagem do tempo e das vidas, e de janela, sob a qual não temos controlo.
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| Ângelo de Sousa |
Temos, no entanto, controlo, pela janela de Fernando Calhau. Mar (projecto), de 1975, é uma caixa que encerra conjunto de 3 imagens que aludem ao mar, pela fotografia editada, pela cor e pela palavra. É um exercício de experimentação em que não é dado uso apenas da fotografia. E o guardião desta obra é uma caixa, que o espectador é convidado a abrir; e desta vez ele tem controlo sobre a janela: pode ou não saciar a sua curiosidade, abrindo ou deixando fechado.
Curiosamente o apelido deste autor remete para rochas, que se encontram à beira do mar, nas praias. Perto do Mar (projecto), #71 (Time-Space) transporta-nos para o oceano. Imersos numa paisagem de movimento, deparamo-nos novamente com o sentimento de passagem; as ondas não param, e não conseguimos percepcioná-las e conhecê-las nunca. São as linhas, as sombras, a água e a espuma, que nos fazem mergulhar completamente nesta obra que quase contém cheiro a maresia, e que certamente demonstra o grande amor deste artista pelo mar.
Não podemos deixar de estabelecer relação entre esta série e a série das fotografias Sem Título (Mão). Estão à entrada da exposição, longe deste mar, mas, graficamente, estão perto uma da outra. Das linhas das ondas passamos para as rugas das mãos, linhas que são cordilheiras de montanhas, mas que, ao invés delas, se renovam. A posição da mão determina-as, e renova-as, como as marés revolvem as ondas. E em nenhuma destas séries avistamos limites; não vemos nunca o recorte da mão, como não vemos a margem do mar; e podemos, assim, indefinidamente, explorá-las na sua infinitude.
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| Fernando Calhau |
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| Fernando Calhau |
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| Fernando Calhau |
Mas a exposição não se esgota por aqui. Na segunda sala, após a quase total monocromia de Ângelo de Sousa, avistam-se apontamentos de cor. São as séries experimentais de Helena Almeida que se afiguram nas paredes.
Estas obras são as que chegam mais directamente a qualquer público. A conexão é quase imediata; em parte devido a estas conterem implícita uma narrativa que torna as séries de leitura sequencial; em parte pela plasticidade da mistura de técnicas, fotografia e pintura. É comum ser aplicada tinta azul sobre as fotografias a preto e branco, em situações que estabelecem ligação entre o auto-retrato e a forma (por vezes disforme) colorida do desenho e da tinta.
Helena Almeida comunica expressivamente, e fá-lo pela fotografia e pelo vídeo. As séries "Ouve-me", suscitam sensações intensamente. A alguns, do som; da respiração; do tacto; e tudo isto se dá na distância da fotografia emoldurada, ou do vídeo ao qual foi retirado o som. Não há volta a dar; as suas narrativas e plasticidades deslumbram sempre, à primeira vista e até à última.
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| Helena Almeida |
E se não nos chegam as texturas plásticas desta artista, segue-se a ela duas salas com o trabalho de Alberto Carneiro, cujas texturas remetem para a terra. Esses espaços remetem para predominantes relações com a natureza e as sensações das mesmas. O olhar sobre os campos alentejanos é sobreposto pela matemática da natureza - fibonnacci e desenhos acompanham e povoam os painéis de fotografias. Mas detrás de uma parede falsa encontra-se um subespaço ainda mais submersivo. Ao passar a fronteira, entra-se num cubículo que ao invés de parecer fechado, abre os horizontes e nos deixa imersos numa verdadeira floresta. Fotografias de árvores em todas as paredes: no andar de baixo, a terra e folhas do chão; no segundo, troncos de árvores dispersos; no terceiro, mais troncos, com alguns mais próximos, outros mais longíquos; e no topo, as copas das árvores. É uma saída para a natureza dentro de um museu; é um aumento de perspectiva, quer se olhe em frente, quer se volte para trás; tanto que nos pode fazer sentir em casa, perto de como nos sentimos por vezes ao sentarmo-nos no campo, rodeados de uma paisagem viva e real.
O tema da casa não se esgota por aqui, pois temos também as fotografias de Leonel Moura: estas são numerosas, um olhar inesgotável de todos os detalhes e recantos do seu próprio atelier. Este autor também mostra uma série peculiar, com teor mais intelectual, de retratos de uma senhora, lendo diferentes livros. Esta sequência sobre a academia, a filosofia e o conhecimento tem algo de engraçado, pelo menos para mim, pois sempre me despertou um sorriso ao passar pelo corredor.
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| Leonel Moura |
Por fim, é digna de menção a secção final de Julião Sarmento. Desde alguns núcleos atrás que esta se faz ouvir, ténue. Um ocasial chilreio faz-nos questionar a sua origem. É ao virar de uma esquina que a zona deste fotógrafo se faz ver.
Entre uma série de fotografias de diversas aves, de tom documental, faz-nos lembrar uma exposição científica. Vemos os nomes científicos de cada um e breves descrições redigidas por algum biológo.
Mas, surpreendentemente, não são apenas passarinhos a 2D no papel fotográfico, mas também, ao fundo da sala, um pequenito pássaro que nos cumprimenta com o seu canto animado. Não tem legenda; não sabemos qual é. Mas sabemos quem é. E quando lá voltarmos, trará a mesma alegria, e a ele lhe faremos companhia.
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| Julião Sarmento |
Poderia explorar mais exaustivamente todo o resto da exposição, pois muitas obras não foram mencionadas. Mas estas foram as que mais se destacaram pela relação entre elas. E tenho a certeza que existem mais infinitas possibilidades de relação entre outras, e infinitas experiências a ter nessa exposição.
Acidentalmente, os fotógrafos acidentais juntaram-se desta forma, e por acidente, quem tiver a oportunidade de lá passar, sentir-se-á em família; ou pelo menos, assim eu me senti; e cada vez que lá passei, mais elas me deixavam algo; espero ao menos com este artigo, também eu lhes deixar algo de mim.
Exposição visitada em conjunto com o grupo Pedimos Desculpa Pelo Incómodo Causado, em Junho de 2017. Deixo um agradecimento especial ao grupo pela descoberta desta retrospectiva com eles.








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