ROOM (2015)
Este filme de ficção tem muito que se lhe diga, mas a melhor forma de o fruir passa por não saber nada sobre ele antes de o ver. Assim, aconselho a quem nunca leu sobre ele, a não ver trailers nem a ler esta crítica até ao fim, porque, a partir de agora, terá spoilers.
Room recria, com excepcional ambiente e cinematografia, uma situação imaginária.
Mais ou menos rara, entre situações de crime, é algo que ocorre por vezes. Quando desaparece uma criança ou jovem, sem deixar rasto. Aqui observamos a situação, de dentro.
Não é óbvio à primeira vista. O ambiente é já familiar e quase aconchegante. As próprias cores e a forma como é filmado dão uma sensação de conforto. Na verdade, a veracidade aliada ao ficcional ambiente criado pela cinematografia criam um ambiente envolvente e familiar. Não podia deixar de o ser. E tal parte da inocência dos olhos de uma criança, e do forte laço que a une à mãe. E mais ainda.
É ainda maior o laço que une a mãe ao filho.
É um filme que se desenrola organicamente, e permite ao espectador quase o sentir também.
O contexto é primo ao colocar o coração nas mãos, em preocupação e amor pelo pequeno Jack e a sua mãe. Narrado do ponto de vista dele, sente-se a confusão e a incompreensão, mas também a coragem que é difícil a um adulto, e não se encontra senão enquanto ainda é uma pessoa 'de plástico'. Mas a força que o Jack encontra no seu comprido cabelo mostra que é possível continuar a crescer.
Jack e a Mã são interpretados incrivelmente por dois actores excepcionais, que permitem uma história bem narrada. Ao mesmo tempo, é uma jornada de vida real, de lidar com problemas psicológicos árduos, incompreensão e doença, tentativas falhadas de lidar com coisas que não se tratam sozinhas. Dá o outro lado da história. Mostra a parte difícil, que comummente poderia ser ignorada para dar um fim bonito, encantador, fácil, mas irreal ao filme. A segunda parte é essencial. À primeira visualização não me pareceu tão bem realizada e planeada com a primeira parte, mas à segunda (e após ler a obra que deu origem à adaptação) penso que o complemento me ajudou a compreender e aceitar melhor essa segunda parte do filme.
Por fim, um fim que é mais do que um fim de um filme. O fecho de um ciclo aquieta o coração que durante todo este tempo tinha estado apertado. Uma tensão criada pela dificuldade de continuar uma vida, mas que mostra a importância desejada da despedida. Largar o passado e folgar o aperto, para continuar em frente.
O que falta no filme neste final é bem complementado pela leitura do livro, no entanto. Muita coisa é complementada por ele e permite um usufruto muito maior. Há menos coisas escondidas, há mais cuidado com a II parte, é mais realista e cuidadoso. E sinceramente, não me chateio muito pois é preciso tomar decisões num filme, e parece-me que se complementam bem, ainda que haja algumas falhas fulcrais no filme, para enquadramento e fluidez realista.
PS: Em termos empáticos, apesar de não ser um problema muito recorrente, é possível estabelecer paralelismo com o dia-a-dia. Seja na dificuldade de voltar a uma rotina e fazê-la o melhor possível, seja nos problemas que surgem mais, de pessoas que têm de fazer-se adultas à força... mas especialmente de compreensão para com o próximo. Há vezes em que não sabemos se devemos dar um abraço ou deixar andar. Perguntar se está tudo bem ou admitir que eles sabem o que fazem, e dar espaço. O filme não dá resposta a essas questões, mas deixa-as no ar, a mim deixou. Depressões e assim são coisas difíceis e mais comum do que parece, e são para ser levadas a sério.
Pontos fortes do filme foram a cinematografia, e a música, também uma boa banda sonora.
Indieheads cinéfilos, este filme é para vocês. Pais e mães, também é para vocês.


Comentários
Enviar um comentário